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Dois links e uma fibra só: como saber se a sua redundância é real

Por Hemily Lima7 min de leitura
Resposta curta

Redundância de link só existe quando os dois circuitos passam por rotas fisicamente diferentes e cada um aguenta o tráfego sozinho no pico. Contratar dois fornecedores não garante nenhuma das duas coisas. Peça o KMZ dos dois traçados, compare, e dimensione cada lado acima do consumo total.

Quase todo provedor que contrata dois links acredita que resolveu a redundância. No fim do mês são dois fornecedores, dois contratos e dois boletos. No mapa de fibra, em muitos casos, é um caminho só.

Aí passa o caminhão, leva a fibra, e os dois links caem juntos. A redundância de link do provedor existia no papel e não existia no chão.

Redundância real exige três condições ao mesmo tempo: rota física diferente até sair da sua cidade, capacidade suficiente em cada lado para segurar o pico sozinho, e failover testado com data. Faltando uma das três, você tem dois links contratados e um ponto único de falha.

A parte que mais engana é a primeira, porque ela não aparece em nenhum painel. Latência, perda e disponibilidade dos dois circuitos podem estar perfeitas por 11 meses e mesmo assim os dois estarem apoiados no mesmo cabo. O gráfico só mostra o problema no dia em que ele acontece, e nesse dia ele mostra os dois links caindo no mesmo minuto.

Por que dois fornecedores podem entregar a mesma fibra?

Porque quem vende link nem sempre é dono da fibra por onde ele passa. Empresas revendem capacidade umas das outras, alugam par de fibra e dividem duto, poste e travessia. Dois contratos assinados com CNPJ diferente podem terminar no mesmo cabo, no mesmo trecho de rodovia.

Eu chamo isso de cobra de duas cabeças. São duas pontas, dois nomes na fatura, e um corpo só no meio do caminho.

Os pontos onde isso acontece são quase sempre os mesmos. A saída da cidade, que costuma ter uma rota principal e nenhuma alternativa. A travessia de rio ou ponte, onde todo mundo passa pelo mesmo lugar porque não existe outro. A faixa de rodovia, onde os cabos de vários detentores dividem o mesmo poste. E o destino: dois links que chegam no mesmo data center, na mesma sala, alimentados pela mesma energia.

Vale um detalhe que pega gente experiente. A rota pode nascer separada e ficar junta depois. Fornecedor que sofre rompimento às vezes remaneja o caminho para restabelecer rápido e nunca volta ao traçado original. Você conferiu na contratação, estava certo, e dois anos depois está errado sem ninguém ter te avisado.

Como conferir o traçado antes de assinar?

Peça o KMZ da rota aos dois fornecedores, abra os dois arquivos no mesmo mapa e procure trecho compartilhado. Onde os traçados se encostam, você não tem redundância naquele ponto. Depois disso, coloque no contrato que a rota é diversa e que mudança de traçado precisa ser comunicada.

O pedido é simples e o momento importa: no processo comercial, antes de assinar, quando o fornecedor ainda está vendendo. Depois da assinatura o mesmo pedido vira chamado e demora semanas.

Nem todo fornecedor manda o arquivo. Alguns tratam o traçado como informação sensível, e isso é legítimo. Quando o KMZ não vem, dá para pedir a lista de pontos de passagem, ou uma declaração de rota diversa citando pelo nome o outro fornecedor que você já tem. Recusa em confirmar qualquer uma das duas coisas também é resposta.

Onde os dois links costumam se encontrar O que conferir
Saída da cidade Se existe mais de uma rota de saída e se cada fornecedor usa uma
Travessia de rio, ponte ou viaduto Qual estrutura cada cabo atravessa
Faixa de rodovia Detentor do poste ou do duto, que pode ser o mesmo para os dois
POP de destino Se os dois circuitos terminam no mesmo prédio e na mesma sala
Energia do POP Se a sala tem alimentação e gerador independentes
Última milha até o seu POP Se o trecho final entra pelo mesmo lado do terreno

As duas últimas linhas são as mais esquecidas. Rota diversa por 400 km que entra no seu POP pelo mesmo eletroduto tem um ponto único de falha nos últimos 30 metros.

Cada lado precisa aguentar o consumo total do pico, não a metade dele. Se a rede consome 10 Gbps no horário de pico, dois links de 6 Gbps somam 12 e parecem confortáveis no gráfico. Quando um cai, o outro entrega 6 para uma demanda de 10, e a rede inteira degrada.

É o erro de dimensionamento que mais aparece, porque o balanceamento esconde ele. No dia a dia os dois links trabalham juntos, o consumo se divide, e tudo indica folga. A conta certa não é a soma, é o que sobra quando um lado sai.

Contratação para 10 Gbps de pico Soma O que sobra quando um lado cai
2 x 6 Gbps 12 Gbps 6 Gbps, degradação geral no pico
2 x 10 Gbps 20 Gbps 10 Gbps, atende o pico de hoje sem folga
2 x 15 Gbps 30 Gbps 15 Gbps, atende o pico e o crescimento do ano

Pagar dois links cheios pesa, e nem todo provedor consegue. Quando não dá, a decisão precisa ser tomada antes e não durante a queda: qual tráfego degrada primeiro, quais serviços continuam com prioridade, e a partir de qual percentual de perda o atendimento é avisado. Degradação escolhida é operação. Degradação descoberta às 20h é crise.

O failover funciona mesmo? Como testar

Testar é derrubar um lado de propósito, em janela combinada, e medir quanto tempo a rede leva para convergir e o que o cliente sente nesse intervalo. Failover que nunca foi testado é hipótese. E a maior parte dos problemas aparece nesse teste controlado, não na queda real.

O que costuma aparecer: sessão BGP que sobe mas recebe tabela incompleta, política de preferência que continua apontando para o link morto, pool de CGNAT amarrado a um bloco que sai só por um lado, DNS recursivo alcançável por um caminho apenas, e monitoramento que não alertou porque o teste não gerou queda total. Cada um desses vira uma correção pequena quando você escolheu o horário.

A cadência que funciona é semestral, mais um teste extra depois de qualquer mudança de borda, de roteamento ou de fornecedor. Se a borda atual já está no limite, o teste vai doer mais, e isso é informação sobre outra decisão: quando trocar a borda deixa de ser opcional.

E a redundância entre POP A e POP B?

A lógica é a mesma dentro da sua rede. Se o POP B só alcança o POP A por um caminho, o rompimento isola a base inteira daquela região, e o fato de você ter dois links de trânsito não ajuda em nada. Enlace de rádio, fibra de um terceiro ou um caminho mais simples já resolvem o essencial.

Essencial aqui quer dizer manter o cliente conectado, mesmo mais lento. Internet lenta é melhor que internet nenhuma. Com lentidão o assinante reclama, abre chamado e continua cliente. Com queda total ele liga para cancelar, e o cancelamento custa muito mais que o enlace de contingência que você não contratou.

Provedor costuma fazer redundância depois do primeiro rompimento. O teste que muda essa ordem é barato: dois arquivos KMZ abertos no mesmo mapa e uma janela de madrugada por semestre. Quem faz descobre o problema no horário que escolheu. Quem não faz descobre no horário que o caminhão escolher.

dimensionamentoredundânciaroteamento

Perguntas frequentes

O que é o KMZ de um link?

É o arquivo com o traçado geográfico da fibra, que abre em ferramenta de mapa. Com ele você compara o caminho de dois fornecedores e vê onde eles se encostam. Vale pedir no processo comercial, antes de assinar, e conferir de novo depois de um reparo grande.

O fornecedor é obrigado a mandar o KMZ?

Não existe obrigação, e alguns tratam a rota como informação sensível. Quando o arquivo não vem, dá para pedir a lista de pontos de passagem ou uma declaração de rota diversa citando pelo nome o outro fornecedor que você já tem.

Dois links do mesmo fornecedor podem ser redundantes?

Podem, desde que as rotas sejam diferentes e o contrato registre isso. O risco não está no nome da empresa, está no caminho físico. Dois fornecedores em uma fibra só protege menos que um fornecedor em duas fibras separadas.

Rádio serve como redundância?

Serve para manter o essencial no ar. A capacidade é menor que a da fibra, então o desenho precisa definir o que continua funcionando e o que degrada. Para o trecho entre POPs, o enlace costuma custar menos que o prejuízo de uma noite fora.

De quanto em quanto tempo testar o failover?

A cada seis meses, e sempre depois de mexer na borda, no roteamento ou trocar de fornecedor. O teste é derrubar um lado em janela combinada e medir a convergência. Sem essa rotina, o primeiro teste real acontece no dia do rompimento.

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